trocas Diretas: Peixe por Pão
- @lugardeportocovo
- 13 de dez. de 2025
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Houve anos em que o dinheiro quase não circulava em Porto Covo. Não porque não houvesse trabalho, mas porque o pouco que entrava não chegava para tudo. Nessas alturas, voltou-se ao essencial.
O peixe saía do mar e ia direto para as mãos certas. À porta de casa, trocava-se peixe por pão, por farinha, por azeite, por batatas. Não havia contas escritas. Havia confiança.
Cada um sabia o valor do que trazia. Um robalo bom podia garantir farinha para a semana. Um balde de carapaus dava para um pão grande e algum azeite. Ninguém ficava rico. Mas quase ninguém ficava sem comer.
As mulheres tinham um papel central nestas trocas. Conheciam as casas, sabiam quem tinha mais e quem tinha menos. Muitas vezes, deixavam o peixe à porta sem bater, como quem não quer envergonhar ninguém.
Não se falava de caridade. Falava-se de necessidade partilhada.
As crianças cresceram a ver estas trocas como algo natural. Aprenderam cedo que a sobrevivência era coletiva. Que o mar não sustentava só quem o enfrentava, mas também quem ficava em terra.
Quando o dinheiro voltou a circular, estas práticas foram desaparecendo. Mas ficaram na memória como prova de um tempo em que a vila se manteve de pé porque ninguém virou costas a ninguém.
Ainda hoje, há quem diga:“Passámos mal, mas passámos juntos.”




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