Porto Covo: Um pouco da História de um lugar à beira-mar
- @lugardeportocovo
- 13 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Tempos Pré-Históricos e Antigos Povos
A zona do Litoral Alentejano, incluindo a área onde hoje está Porto Covo, apresenta sinais de ocupação desde a Pré-História. Grupos nómadas aproveitaram a abundância de recursos do mar, rios e terras férteis da região. Não há muitos registos arqueológicos diretamente em Porto Covo, mas vestígios na região envolvente indicam a presença de comunidades neolíticas e calcolíticas.
Esses povos viviam essencialmente da caça, pesca e recoleção, e, com o tempo, começaram a formar pequenos povoados. A costa, embora perigosa por vezes, oferecia alimento constante.
Romanos e a Ilha do Pessegueiro
A história mais documentada começa com a chegada dos Romanos à Península Ibérica. Porto Covo não era uma cidade romana, mas a Ilha do Pessegueiro, em frente à costa, teve um papel importante.
Complexo de Salga e Comércio Marítimo
Na ilha foram encontrados vestígios arqueológicos de cetárias (tanques de salga de peixe), parte de um complexo industrial romano para produzir o garum, um molho fermentado muito valorizado em Roma. Também há vestígios de possíveis armazéns, cais e habitações. Acredita-se que a ilha servia de entreposto comercial e ponto de apoio à navegação costeira.
Porto Natural
A própria costa de Porto Covo oferecia abrigo natural para embarcações, razão pela qual, mesmo sem um grande porto construído, sempre teve alguma importância para pescadores e navegadores.
Alta Idade Média: Invasões e Insegurança
Durante os séculos V a IX, após a queda do Império Romano, a região passou por um período de instabilidade, com a presença dos Visigodos e mais tarde dos Muçulmanos. A costa tornou-se perigosa, especialmente a partir do século IX, com os ataques vikings e depois piratas mouros e berberes.
A zona costeira, incluindo Porto Covo, era evitada como local de residência permanente. A insegurança levou a que os povoados se fixassem mais no interior. A população costeira era escassa, com pequenas comunidades de pescadores, quase sempre sob ameaça.
Baixa Idade Média e Renascimento
Ao longo da Idade Média e do início da Idade Moderna, a região permaneceu pouco povoada. Os reis de Portugal tentaram incentivar o povoamento da costa com cartas de foral e benefícios. Mas os ataques de corsários do Norte de África continuavam a ser frequentes. Isso levou à construção de pequenas fortificações costeiras, como o Forte do Pessegueiro, construído já no final do século XVI (durante o reinado de Filipe I, o primeiro dos Filipes, já em união ibérica).
O projeto era ambicioso: construir uma fortaleza na ilha e outra na costa (ambas existem), ligadas por um molhe para proteger um porto artificial. Mas o molhe nunca foi terminado, e o projeto acabou por ser abandonado.
Fundação Moderna de Porto Covo – Século XVIII
É no final do século XVIII que Porto Covo ganha forma como aldeia organizada, graças à visão de Jacinto Fernandes Bandeira, um comerciante abastado de Setúbal, com apoio do Marquês de Pombal.
Inspirado pelos princípios do urbanismo pombalino, desenhou a aldeia com ruas ortogonais, centradas na Praça Marquês de Pombal, que ainda hoje é o coração da vila. As casas seguem o estilo típico: brancas com barras coloridas, principalmente azul.
Porto Covo tornou-se, então, uma comunidade piscatória bem estruturada, onde a pesca do polvo, sardinha, e outras espécies era central. O nome "Covo" vem das armadilhas de pesca (covos) usadas especialmente para apanhar polvo.
Século XIX – Uma vida simples, mas dura
Durante o século XIX, Porto Covo manteve-se uma aldeia isolada e rural, vivendo quase exclusivamente da pesca e agricultura de subsistência. A vida era dura, com acesso limitado a cuidados de saúde, educação ou transportes. O mar era generoso, mas também perigoso – os pescadores enfrentavam condições duras e tempestades frequentes.
Século XX – Abertura ao Mundo
Foi só na segunda metade do século XX que Porto Covo começou a mudar mais visivelmente.
A pesca artesanal modernizou-se um pouco, mas ainda era feita com métodos tradicionais.
A construção de estradas melhorou o acesso à vila, especialmente com o crescimento da indústria petrolífera e portuária de Sines.
Apesar disso, Porto Covo manteve-se afastado da urbanização agressiva que atingiu outras zonas costeiras.
Nos anos 80 e 90, com o aumento do turismo interno, Porto Covo começou a ser descoberto por portugueses à procura de praias tranquilas e beleza natural.
Século XXI – Porto Covo Turístico, mas Autêntico
Hoje, Porto Covo é um destino turístico de eleição, especialmente entre quem procura natureza, sossego e autenticidade.
Continua a ser uma aldeia de pescadores, mas com cada vez mais alojamentos locais, cafés e lojinhas de artesanato.
A zona faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, garantindo alguma proteção ambiental e limitando a construção desordenada.
A Ilha do Pessegueiro, agora desabitada, continua a ser um símbolo da vila – famosa na canção de Rui Veloso e visitada por turistas curiosos.
A gastronomia local, rica em peixe fresco, polvo e marisco, atrai muitos visitantes.
A simplicidade das gentes, o estilo de vida calmo e o ambiente pitoresco fazem de Porto Covo um lugar especial.
Porto covo de sempre
Porto Covo é o exemplo vivo de como uma aldeia pequena pode ter uma história grandiosa: desde vestígios romanos à resistência contra piratas, passando por um planeamento urbano
e uma resistência admirável à pressão do turismo de massas.
É um lugar onde o tempo parece andar mais devagar, e onde as histórias se contam com os pés na areia e os olhos no mar.




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