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Os Olhos na Falésia de Porto Covo

  • @lugardeportocovo
  • 13 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Isto aconteceu mesmo.Ainda há quem se lembre. Antes de haver telemóveis, radares ou previsões certas, em Porto Covo havia olhos. Olhos atentos, treinados pelo tempo e pela necessidade. Eram quase sempre de mulheres.


Todos os dias, sobretudo no inverno, elas subiam às falésias. Não iam conversar nem passear. Iam ver o mar. Sabiam a hora aproximada do regresso dos barcos, mas o mar nunca respeitou horários.


Cada mulher conhecia o barco que esperava. Não pelo nome pintado no casco — mas pela forma como ele cortava a água, pelo balanço, pela vela mais cansada, pela cor já gasta pelo sal. À distância, muito antes de qualquer outro, reconheciam-no.

Quando o mar vinha fechado e o nevoeiro se deitava sobre a costa, o silêncio era maior. Nesses dias, ninguém falava muito. Subia-se, olhava-se, esperava-se.


Havia sinais que só elas entendiam. Um atraso que não era normal. Uma vaga mais agressiva. Um ponto no horizonte que desaparecia e voltava. Quando algo não estava bem, a notícia corria rápido, sem gritos nem dramatismos. Era um olhar que mudava, uma descida apressada, uma porta que se fechava cedo demais.

Nem sempre os barcos voltavam todos.


Houve dias em que as mulheres ficaram na falésia até o sol cair. Dias em que o vento parecia responder ao medo. Dias em que o mar devolveu apenas pedaços — uma bóia, uma rede, um remo.


Não havia choros públicos. O luto era vivido dentro de casa, com respeito e silêncio. No dia seguinte, o mar continuava ali. E alguém tinha de voltar a subir à falésia.

Porque esperar também era uma forma de amar.


Hoje, quem passa por aqueles pontos altos vê apenas paisagem. Mas quem sabe, sabe: ali ficaram horas de vida suspensa, decisões que nunca foram ditas em voz alta, histórias que não precisaram de ser escritas para serem verdadeiras.


O mar levou muito.Mas nunca levou a coragem de quem ficou a olhar.

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