as histórias das suas gentes
- @lugardeportocovo
- 13 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

O coração verdadeiro de Porto Covo: as histórias das suas gentes. Por mais belas que sejam as praias ou por mais antigo que seja o forte, nada bate uma boa história contada à sombra de um muro branco, por alguém com sal no cabelo e tempo no olhar.
Estas histórias circulam pela vila, passadas de boca em boca, à moda antiga. Algumas são reais, outras são “reais o suficiente” para quem vive lá. Aqui vão algumas das mais deliciosas:
O velho Manuel e o polvo que se vingou
Dizem que o Manuel Candeias, pescador desde os 10 anos, tinha uma mão só para o polvo. Um verdadeiro "encantador de tentáculos". Era ele quem ensinava aos mais novos como meter o covo e como escolher a isca certa (diz-se que era sempre uma sardinha que ele mesmo beijava antes de lançar ao mar).
Certo dia, diz-se que o Manuel apanhou um polvo tão grande que não cabia no barco. Quando tentaram puxá-lo, o bicho enrolou-se no motor e virou o bote! Voltaram a nado. No dia seguinte, encontraram o covo... vazio. Diz-se que o polvo, ofendido, jurou nunca mais cair nas mãos do Manuel.
O velho jurava de pé junto: “Aquele polvo era cristão. E tinha memória.”
A Maria dos Chibos e o rebanho de visitas
Na década de 60, havia uma senhora conhecida por todos como Maria dos Chibos. Era uma mulher pequenina, mas brava, com um rebanho de cabras que sabiam o caminho de volta para casa melhor que muitos turistas.
O curioso? Dizem que, quando um forasteiro ficava perdido na serra ou na praia, bastava seguir os chibos da Maria — eles acabavam por levá-lo até a aldeia. Um inglês perdido em 1971 jurou que foi salvo por uma cabra que “olhou para ele, balou, e virou-se como quem diz: ‘segue-me, ó turista’”.
A sopa que salvou um casamento
Conta-se que um casal lisboeta, à beira do divórcio, foi passar uns dias a Porto Covo “só para espairecer”. Estavam num daqueles silêncios de cortar à faca quando entraram na tasca da Dona Etelvina, uma senhora com mãos de ouro e língua de faca.
A mulher pediu sopa de peixe. O homem, uma feijoada de choco.
Comeram. Choraram. Falaram. Reconciliaram-se.
A Dona Etelvina, vendo-os abraçados à saída, atirou:“Está visto, ninguém briga com barriga cheia. E peixe fresco cura tudo, até marido idiota.”
Hoje, esse casal manda um postal todos os anos. Etelvina guarda-os num pano de cozinha bordado com a frase: “Cozinhar também é amar”.
A menina que dizia ver sereias
Nos anos 90, uma miúda chamada Beatriz, filha de pescador, costumava sentar-se nas rochas perto da Ilha do Pessegueiro e falar sozinha durante horas. Quando a mãe a chamava para casa, dizia sempre:“Espera! Ainda não acabei a história com a sereia!”
Ninguém ligava até que um dia ela descreveu, com detalhes, o naufrágio de uma embarcação antiga... que anos depois foi confirmada por mergulhadores. Dizem que ela sabia até onde estavam os destroços.
Hoje, a Beatriz é guia turística em Sines. Mas ainda passa por Porto Covo, de vez em quando, para “ouvir o mar falar”.
O galo que cantava à noite
E claro... não podia faltar uma história estranha.
Um dos moradores mais faladores da aldeia, o Zé da Hortinha, criava um galo que teimava em cantar... às duas da manhã. Os vizinhos odiavam-no, ameaçaram fazer canja, tentaram tudo. Mas o bicho era persistente.
Um dia, o Zé disse que o galo tinha sido "amaldiçoado" por um cigano que lhe perdeu num jogo de cartas.“Enquanto eu tiver este galo, nunca mais durmo descansado.”
No verão seguinte, o galo desapareceu misteriosamente. E o Zé, dizem, dorme como um anjo desde então.
Estórias?
Porto Covo não é só areia fina e mar cristalino. É feito de gente que conta, ouve e vive histórias como se fossem mitos. Lá, cada pessoa parece ter o seu capítulo no grande livro da aldeia. E se perguntares a qualquer local, mesmo que te diga que não sabe de nada… dá-lhe 5 minutos e um copo de vinho, e vais ver que tem uma história guardada só para ti.




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