Aprender a Nadar Antes de Aprender a Ler em Porto Covo
- @lugardeportocovo
- 13 de dez. de 2025
- 1 min de leitura

Em Porto Covo, durante muito tempo, o mar veio antes da escola. Não por escolha, mas por necessidade. Havia crianças que ainda não sabiam juntar letras e já sabiam ler a cor da água, o vento na pele, a força da vaga.
Aprendia-se a nadar cedo. Muito cedo. Às vezes empurrados, às vezes puxados pela mão, quase sempre com medo. Não era um desporto, era uma questão de sobrevivência. Quem vivia junto ao porto ou às praias crescia entre barcos, redes e marés.
Os dias começavam cedo. Antes das aulas, os miúdos ajudavam a desenredar malhas, a carregar caixas de peixe, a lavar o convés. As mãos ficavam salgadas, ásperas, marcadas. Os cadernos vinham depois — quando vinham.
Havia pais que diziam: “Primeiro aprende a flutuar, depois logo se vê.” Não era desleixo. Era sabedoria dura. Porque o mar não perdoava quem não o respeitava.
Muitos aprenderam a nadar sem nunca terem tido uma boia. Outros caíram à água por descuido e voltaram sozinhos à borda. As histórias repetem-se com nomes diferentes, mas com o mesmo fim: sobreviver.
A escola era importante, sim. Mas o mar era urgente.
Hoje, essas crianças são homens e mulheres feitos. Alguns ainda nadam com a mesma calma de então. Outros afastaram-se do mar, mas nunca deixaram de o reconhecer. Porque quem aprende a nadar antes de aprender a ler, aprende cedo que a vida nem sempre vem escrita — sente-se.




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